terça-feira, 22 de agosto de 2017

Antirracismo: uma patologia necrófila

Os heróis multiplicam-se porque, como é habitual entre cobardes, o fenómeno histórico do racismo deixou de existir nas sociedades maioritariamente brancas ocidentais. É apenas um cadáver em putrefacção.
À boa maneira provinciana, a agenda mediática portuguesa decidiu apontar baterias a Pedro Passos Coelho. O líder do PSD vive e viverá compelido a envergar a farda de racista e xenófobo, entre outros mimos. Os pretextos multiplicam-se.
Há semanas foi a manutenção do apoio do PSD ao candidato autárquico a Loures, André Ventura, por este ter abordado – e bem! – questões associadas à integração problemática da minoria cigana na sociedade portuguesa, como se esse não fosse um problema existente e como se a simples referência a qualquer identidade colectiva (cigana, portuguesa, africana ou outra) não implicasse necessariamente uma certa carga de estereotipação. Sem estereótipos seria impossível qualquer cabeça normal gerir o sem-número de informações intrínsecas aos objetos que envolvem pessoas, isto é, sem estereótipos não seria possível qualquer discurso racional sobre a vida social. Não haveria esquerda, direita, católicos, islâmicos, homens, mulheres, crianças, etc. A vida social e a sua interpretação equivaleriam a folhas em branco, num mundo ainda mais absurdo do que aquele que temos.
Quem quiser que experimente pensar sem estereótipos.
Há dias o pretexto foi o de Pedro Passos Coelho ter referido – e bem! – que compete ao Estado cumprir um dos seus deveres básicos: proteger a dignidade da identidade portuguesa, prática indissociável da garantia de condições de segurança no espaço territorial nacional. Para que se saiba, qualquer Estado existe para regular as relações com os outros Estados e, necessariamente, para regular as relações da sociedade acolhedora que tutela com os imigrantes. Não apenas um Estado que não cumpra essa função será necessariamente um Estado falhado, como também fechar a porta ao debate público sobre o assunto significa recusar, e de forma grosseira, a legitimidade da existência de propostas distintas na matéria. Isso é o mesmo que recusar a liberdade e o pluralismo próprios de uma democracia.
Num momento histórico em que um dos desafios mais sensíveis das sociedades ocidentais é o da xenofilia, uns quantos alucinados esperneiam desalmadamente contra a xenofobia. Num momento histórico em que as sociedades ocidentais integram minorias (raciais, religiosas, sexuais, étnicas) como não acontece noutros locais do planeta e como nunca se verificou no passado, uns quantos alucinados esperneiam desalmadamente contra o racismo existente na Europa e nos EUA.

Estou-me marimbando para o que pensam, nestas matérias, antixenófobos e antirracistas encartados e respectivas entidades repressivas que usurparam as funções do Estado numa democracia. Faço-o com o à-vontade de quem tem um seguro de vida tão simples quanto estúpido: não sou branco.

É nesse mesmo caldo cultural obscurantista que, ainda assim, Pedro Passos Coelho tem também garantido o seu escudo: um casamento “multirracial” e “multicultural”.
De forma manifesta ou, bem pior, de forma latente a importância decisiva conquistada no espaço público por atributos dessa natureza tão primária como fundamento do direito à liberdade de pensamento e à legitimidade da palavra sobre temas tão sensíveis demonstra, se dúvidas existissem, que as discussões sobre xenofobia e sobre racismo não partem de pressupostos racionais, antes de lógicas tribais primárias. É o que me permite escrever o que escrevo e é o que permite a Pedro Passos Coelho escapar à imolação. Sintoma da conquista intelectual do Ocidente pelo terceiro-mundismo mental.
Por cobardia própria, a população branca perdeu o direito à sua dignidade identitária como nenhuma outra pertença racial na face da terra. O facto revela-se ainda mais absurdo porque os seus controleiros internos – a minoria também branca que tomou de assalto o espaço público – nem sequer evidencia preocupações morais genuínas ou de sentido de justiça em relação às minorias. Limitam-se a seguir o instinto porque a anti-xenofobia e o antirracismo permitem colher votos. A escolha do alvo Pedro Passos Coelho constitui prova que sobeja. A complementar está a composição exclusiva ou esmagadoramente branca de grupos parlamentares como os do PS, PCP e BE em mais de quarenta anos de democracia.
Parece também que os controleiros esquerdistas acreditam que se não colocarem depressa o açaimo no homem, Pedro Passos Coelho, depressa veremos nas ruas de Portugal brancos a matar ciganos e pretos a-torto-e-a-direito. Aqui fica o meu agradecimento pessoal e público a indivíduos como Fernanda Câncio, Isabel Moreira, Catarina Martins, Ana Catarina Mendes ou, aqui mesmo no Observador, a Luís Aguiar-Conraria. Anoto, no entanto, que tanta perfeição moral só pode esconder algum defeito, no caso, a necrofilia. Os heróis multiplicam-se porque, como é habitual entre cobardes, o fenómeno histórico do racismo (tal como o da xenofobia) deixou de existir nas sociedades maioritariamente brancas ocidentais. Trata-se de um cadáver em putrefação que faz com que alguns se percam de amores por ele.
Insisto, por isso, em ideias que há muito defendo. O que está a acontecer no século XXI é como se, no século XIX, se tivesse continuado a chamar escravatura ao racismo, apenas porque um e outro fenómeno tinham elementos em comum. A verdade é que aquilo que os distinguia aos olhos da época, e bem, era bem maior do que aquilo que os aproximava. Daí que a escravatura nunca se tenha confundido com o racismo.
Comparativamente e cingindo-me aos temas em apreciação, as sociedades ocidentais são hoje menos racionais do que eram no século XIX. Basta qualquer ocidental pensar comparativamente o que eram as suas sociedades há meio século em matéria de relações raciais e em matéria de relações com os estrangeiros e no que se tornaram hoje. Tal comparação permite a qualquer inteligência mediana compreender a fraude intelectual que é persistir na utilização da palavra racismo no século XXI.
Existem e existirão, sem dúvida, desafios intrínsecos às relações entre maiorias e minorias. Porém, as sociedades brancas ocidentais são as que melhor os resolveram e resolvem comparativamente às demais sociedades. Continuar a utilizar a palavra ‘racismo’, e o modo como se faz no debate público e político, serve apenas para perpetuar no tempo o estigma da população branca. O resultado disso, hoje por demais evidente, é o do agravamento dos problemas e da violência associada porque a palavra ‘racismo’ impede a identificação dos obstáculos onde eles hoje são verdadeiramente problemáticos e graves. A saber, fora das sociedades ocidentais maioritariamente brancas e no interior das minorias raciais, étnicas ou religiosas que, vivendo nas sociedades ocidentais, integram segmentos que usam e abusam da sua tolerância como nenhum outro tipo de sociedade admite. E não é difícil compreender as razões do fenómeno ter deixado de existir. O racismo é do tempo da discriminação racial formalmente instituída no interior dos Estados, prática historicamente ultrapassada no final da segunda guerra mundial (1939-1945) e nas décadas imediatas que se sucederam. O racismo é do tempo da colonização europeia, fenómeno que também passou à história vai para meio século. O racismo é do tempo da guerra fria; é do tempo dos regimes brancos da África Austral; é do tempo do apartheid sul-africano – conjunto de fenómenos que fecharam em definitivo o seu ciclo em inícios da década de noventa do século XX quando já eram historicamente residuais.
Não é possível que os fenómenos-chave que geraram, enquadraram e alimentaram o racismo tenham sofrido transformações profundas e irreversíveis ao longo de décadas e, por seu lado, o racismo, tal como o conhecíamos, permanecer intacto. A postura atual de antixenófobos e antirracistas europeus e ocidentais constitui inclusivamente um insulto ao esforço histórico que as suas sociedades de maiorias brancas fizeram no último meio século. Foram, aliás, as únicas que o fizeram de forma genuína e com provas dadas. Não conheço outras.
Sendo o racismo um cadáver em putrefação resta a decência de sepultá-lo.

Gabriel Mithá Ribeiro

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Indisfarçáveis incómodos

A espaços, o que parece ser um recrudescer de dissensão, ressentimento, rancor, … ou em circunstâncias opostas, enlevo, dádiva, comunhão, … na realidade não passa de um erro de percepção/paralaxe [explicável por outras ‘coisas’ que, dada a sua multiplicidade e a tratar-se de um exercício de ‘filigrana’, prescindo de expor].
Não há mais das ‘primeiras’ nem menos das ‘segundas’. Passou-se da ‘inexistência’ à ofuscação num ápice; houve um colossal aumento da ‘visibilidade’ de uma torrente opiniosa que outrora não existia porque não obtinha forma de dar conta de si – era anónima, passiva e invisível. Presentemente sem apelo nem agravo, sem pudicícia, sem penhores, …fazem passar o que seja de sua ou ‘lavra’ alheia. Esse acréscimo [exponencial] de exposição gerou, isso sim, forte(s) incómodos(s) ― em concreto
1) no ‘meio jornalístico’ e da ‘opinião referencial’ [que, a mim, parecem cada vez menos referenciais com excepção dos trabalhos de ‘investigação jornalística’ propriamente ditos] e mais pelo confronto com a irrelevância que supunham não possuir do que pelos efeitos nefastos [comerciais] que disso lhes possam advir, e 2) no seio dos [difusos] estratos e comunidades socio-politicamente mais envolvidas que vulgarmente, e sem acaso, são ‘alinhados’ com os ‘catecismos’ e as múltiplas agendas da [cretinamente] designada «esquerda» [neste particular é necessário atender à intersecção ou justaposição entre esses dois ‘corpos’]. Resumindo de forma ‘curta e grossa’: a ‘esquerdalha’ nas suas variadas formas e cambiantes perdeu o monopólio assim como os benefícios inerentes ao estatuto.

Em termos absolutos detalhe importante é o concernente às ‘qualidade(s); já, em termos relativos, é despiciendo conquanto consideremos que mais grunhice menos atrevimento, mais idiotia menos fundamentação, mais capacitação menos instrução, mais prolixidade menos ortografia, … o que seja para a ‘direita’, ‘centro’ ou ‘esquerda’ é com os ‘alinhavos’ com que observam, raciocinam, ajuízam e verberam ou aplaudem que optam e decidem o voto. E assim, em ‘princípio’, de forma rudimentar mas inapelável, umas centenas de milhar de asnos e azémolas detêm o poder de deliberar as trilhas a seguir. O que, convenhamos [sem cinismo], não é bom nem mau; é o que é. E bem feito!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Os foguetes do Quim



O déspotazito Kim anda fascinado com os foguetes; o ogrezinho (norte-)coreano ameaçou atacar os EUA em meados de Agosto.
O ‘berreiro’ foi muito mas não houve quem se atrevesse a mandar o primeiro ‘sopapo’. Do ‘palavreado’ que irrompeu, causado pelos ‘picos’ de testosterona daquele grotesco plantígrado designadamente o da ‘lavra’ de gente que cá, pela paróquia, é nomeada «especializada» pouco ou nada se aproveita.
 
Não há quaisquer dúvidas que a estupidez rende. De que vive o vendedor de banha-da-cobra, afinal? Quem possua cinco microgramas de ‘massa cinzenta’ não os atura – trata de ir às fontes da especialização renunciando-lhes, obviamente, os serviços de diagnose e/ou hermenêutica.

Do que não restam dúvidas é que duas (imediatas) consequências, houve (cada qual mais benéfica do que a outra): por um lado, os mercados financeiros levaram com um balde de água gelada para não sobreaquecerem e, por outro lado, a indústria dos armamentos estará exultante. Moços, da fundamentação dessa exultação há um texto [teatro] de George Bernard Shaw ― irrecomendável, aliás ― apropriado.
Tolinhos! Do Homem e sobre os homens pouco haverá, ou não haverá, que não esteja escrito. E, infelizmente, a maioria das ‘reciclagens’/adaptações/actualizações/… são de pior qualidade e, portanto, de menor assertividade. Nunca repararam que quem sabe ou pode, diz nada? E se chega a dizer, fá-lo sempre com as cerces palavras do inevitável?

Lady BritomartNão há questão moral no assunto, Adolphus. Deves simplesmente vender canhões e armas às pessoas cujas causas forem correctas e justas, e recusá-las aos estrangeiros e aos criminosos.
Andrew UndershaftNão, nada disso. É preciso manter a verdadeira fé de armeiro […] ceder armas a todos os homens honestos que ofereçam um preço justo por elas, sem atender a pessoas ou princípios: a aristocratas e republicanos, a niilistas, a capitalistas e socialistas, a protestantes e católicos, a polícias e ladrões, a pretos, brancos e amarelos, a todos os tipos e de todas as condições, de todas as nacionalidades, credos, fés, de todas as estupidezes, de todas as causas e crimes […]
~ in  3ºActo/Major Barbara

sábado, 12 de agosto de 2017

Compreensão e Política (a)

Há duzentos anos, e sem que se fosse absolutamente estúpido, era aceitável confiar no futuro. Hoje, e dado que somos esse esplêndido ‘porvir’, quem crê nas actuais ‘predições’? Há perguntas que devem evitar-se; ou fazem-se prescindindo da resposta. Porque em duzentos anos, das tecnologias às ciências aplicadas, tudo foi exponencialmente incrementado. Não posso, por ser errado, afirmar que a inteligência se decrementou; mas posso afirmar que se mantiveram incólumes os níveis que definem as várias formas de hebetismo. E as tecnologias trataram de incrementar a visibilidade, por exemplo.
Leslek Kolakowski * propalava que i) nunca há falta de argumentos para apoiar qualquer doutrina, sejam quais forem as razões para tal; ii) invariavelmente se encontram causas para qualquer acontecimento ou fenómeno por muito extraordinários ou inesperados que sejam; iii) aconteça o que acontecer será explicado. Ora – observo eu – com folhas de papel em branco ‘explica-se’ muito melhor.
À primeira vista, há qualquer ‘coisa’ que não bate certo ou está em falta. Não há ‘coisa’ desacertada ou em falta! Há somente um denominador que, naturalmente, é comum e, pior, prevalente. É este o quid pro quo – a prevalência do denominador. Alegoricamente, e no que concerne a esta ‘problemática’, o «cerne» não é o ‘bicho da fruta’; é a ‘fruta’. E mais: a ‘fruta’ não deseja tornar-se imune à actividade do ‘bicho’.

(a) de Hannah Arendt
* filósofo polaco/‘Lei da Cornucópia Infinita


sexta-feira, 23 de junho de 2017

O trigo antes da farinha, a farinha antes da massa, a massa antes da pizza

Ao “Hermínio do Bentley emprestado” bateu-lhe o “azar” à porta – uma probabilidade que amiúde sucede a todo e qualquer um mas por estas razões, e com estas consequências, sucede aos vigaristas, larápios, etc. A comunidade de Oliveira de Azeméis bem pode esfregar as “trombas com um pano encharcado” e de duas, uma: ou não dá pelo embaraço [o que espelhará, bem, a espécie e a característica além de ser o mais expectável] ou dá, e, então, lhes sirva de lição; a sociedade em termos latos deve [considerando os inúmeros e consecutivos casos de banditismo apanhada por aí] fazer o mesmo.

[Vem a propósito fazer uma(s) perguntinha(s), ingénuas, ao(s) jornalista(s) na pessoa de Bárbara Reis: Nunca tinham dado pelas manisfestações ostentatórias da criatura? Souberam agora? É que agora, e dadas as circunstâncias, não é jornalismo (escrutínio); é noticiarismo. Agora é tarde.]
Triste, realmente, é – passados quarenta e três anos sobre a deposição e trinta e cinco sobre o seu passamento – constatar que, por mais voltas que dê, Marcello Caetano expirou perspícuo, carregado de razão — DEMOCRACIA não era para os nossos dentes. Ponderando eu que, a “coisa edificada” deixa muito a desejar — fruímos de tempo mais do que suficiente para a instituir — e que designá-la por «democracia» é, de facto, uma depravação político-ideológica, uma deformidade ética, moral e jurídica e, linguisticamente, uma corruptela. Em 5 de Outubro, o PR definiu a “ética republicana”
De cada vez que um responsável público se permite admitir dependências pessoais ou funcionais, se distancia dos governados, alimenta clientelas, redes de influência e de promoção social, económica e política, aos olhos do cidadão comum é a democracia que sofre
Estou marimbando-me para os “padecimentos” da democracia. O mesmo não digo dos atropelos e chagas que são infligidos, de forma sistemática e dolosa – como acaba sempre por se constatar –, pelos “democratas” a todos os «fundamentos» democráticos. A não ser que alguém me comprove que os oligarcas se propõem a mais e diferente do que os aristocratas. Pela minha convicção de que as nações assim como os indivíduos, salvo raríssimas excepções, se portam com decência quando as circunstâncias não lhes permitem outra coisa. E a “certeza” de que as ideias que menos influenciam a política, são as políticas. E por crer que as forças que, desde o início, constroem uma civilização colaboram com as forças que a arruinam. E que (todas) as doutrinas que pretendem arrastar multidões têm de ocultar a arbitrariedade, inevitável, dos seus postulados e as incertezas das suas “conclusões”. Enfim, que me comprovem que a democracia, perante a qual genufletem ou persignam, não é instrumental. Etc.
Díssono do presidente Marcelo Rebelo de Sousa e de tantos, tantos outros, não sou um democrata incondicional; serei, quanto muito, um democrata discricionário. E mais: adoraria poder ser liberal. Ora, se não temos dentes para “existências” democráticas então para liberalismos, faltam-nos as gengivas!

Nuno Garoupa escreve, hoje, “falta-nos uma sociedade civil forte. (…) Um dos problemas é a vida política esgotar-se precisamente nos partidos (e claques). A mobilização a fazer é na sociedade civil, que não existe. (…) O resto será mais do mesmo, inevitavelmente.”
Tal e qual! O trigo antes da farinha, a farinha antes da massa, a massa antes da pizza.