quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Coisar" coisas inteligentes


O senhor J. Stiglitz “coisou” à Antena1. Disse “coisas” que uma certa rapaziada da “intelectualidade” e uma parte da comunicação social com manhas de independência, leia-se evangelizadores, adora ouvir. Daí a repercussão e o revérbero, tamanho. Acima de qualquer outro benefício porque aos primeiros lhes convém e aos inteligentes do ovil porque lhes infla e massaja os egos. Os restantes são descartáveis — não raciocinam e sequer têm condições para isso, caso o desejassem – a sua função é preencher, fazer número. E justificar a resiliente prevalência daqueles.

J. Stiglitz proferiu uma série de sentenças genéricas — que se encontram em qualquer manual de Macroeconomia ou Introdução à Economia de P. Samuelson a Gregory Mankiw, de Robert Frank a George F. Stanlake, …— adaptadas à Europa do Euro, Portugal, Alemanha,… mas que, convenhamos, valem pouco em termos práticos.
É difícil entender? Não. Ouvir, em contraponto, as declarações do presidente da República da China no encerramento da Cimeira dos G20 é bastante. Mas se não fôr suficiente, então que se estude o último livro da sua autoria «Em busca da Segurança» (Março de 2015) e se responda com plausibilidade a cada um dos desafios suscitados, mediatos, e ainda, antes disso, se solucionem os problemas imediatos.
Haja vontade e coordenação primeiro e depois muito, muito dinheiro, e mais maneira de o esticar sem gerar novas formas de pobreza!

Para isso não carecemos de levar com o J. Stiglitz – se bem que o senhor J. Stiglitz não deva ser acusado por sermos uma comunidade de pasmados. Temos quem o possa fazer com o mesmíssimo background científico, melhor proficiência dada a sua imersão, perdendo eventualmente no que tange a informação privilegiada. Por exemplo, Ricardo Paes Mamede que encaixa na perfeição no primeiro subgrupo referido.

Nesta matéria, e noutras social e politicamente correlativas, isto funciona por “vagas”– na derradeira década a primeira vaga foi a de N. Roubini e, a espaços, umas ôndulas de P. Krugman; depois foi Krugman atrás de P. Krugman; a seguir um maremoto de T. Piketty; ultimamente tem sido/é J. Stiglitz.
Sucede por acaso ou por efeito das luas? Não, não há acaso algum; há sim, por parte dos pasmados nativos — sempre mimetizando a "onda forasteira" — o atávico deslumbramento com o estrangeiro e uma intenção subliminar da “intelectualidade”.

Lê-se (Em busca da Segurança) “Explicando as mudanças
«Nos anos mais recentes temos assistido a mudanças vincadas das perspectivas sobre a protecção social. Algumas destas mudanças foram o resultado de intervenções estatais mal conduzidas para aumentar a responsabilidade individual sob a crença de que os mercados funcionam bem por si só.» (pág.71)

Que foram “resultado de intervenções estatais mal conduzidas” apareça quem fundamentadamente o desminta; mas que a sua “condução” tenha tido o propósito de as desacreditar em benefício do excelente funcionamento do mercado, parece-me um “exagero” catequético. Mais: como se concilia esta implícita e imarcescível malevolência hobbesiana com a necessária e urgentíssima benevolência humana para resolver esses ciclópicos assuntos? E ainda — sem que “a solução” passe ao lado da violência?

Obs.: evidentemente que aos Stiglitz das variadas especialidades são permitidos todo o tipo de atrevimentos e até irresponsabilidades - é da natureza do pensamento! Não existe qualquer acrimónia em relação a J. Stiglitz, pelo contrário. Leio-o atentamente, sempre. O que não faço com Krugman ou Piketty, por exemplo.