quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O sotôr não conhece o doente!



Nas ciências naturais em que é fácil rebater, desmentir e contestar, os tolos podem ser úteis sem risco de serem perigosos; nas ciências humanas em que é difícil refutar, os imbecis podem ser perigosos sem utilidade sequer para os próprios.
   ~ Nicolás Dávila ~

Dias depois de eu ter escrito «“Coisar” coisas inteligentes» Robert Skidelsky, renomado economista, professor, “lord”, biógrafo de J.M.Keynes,…esteve cá para participar no Festival Internacional de Cultura de Cascais, palestrou e deu uma entrevista. Do que discreteou, destaco
no cravo — “a política de estímulos ao rendimento que o governo iniciou é demasiado tímida para ter efeitos visíveis na retoma. É uma escala muito, muito pequena. Quando se tem um nível de hiato do produto [distância entre o crescimento verificado e o potencial da economia] desta dimensão, subir pensões num montante mínimo não funciona. É preciso gastar muito dinheiro. Se a ideia é estimular a economia com dinheiro público então é necessário mais dinheiro. Muito mais dinheiro, e a uma escala europeia. Tem de o fazer com grande impacto. Um pequeno país não pode fazer muito por si só. Tem de ser algo à escala europeia: tem de ser um programa de investimento europeu muito, muito grande
na ferradura Portugal, como pequeno país na Zona Euro, só tem duas estratégias: ou aguenta e espera que as reformas do lado da oferta [muitas vezes referidas como reformas estruturais] tenham efeitos no tornar o país mais competitivo, e [ao mesmo tempo] espera por ajuda – a que conseguir das instituições da Zona Euro – ou opta por sair da Zona Euro com outros países, e ganha um instrumento adicional que é a taxa de câmbio
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Esperar efeitos milagrosos da manipulação da “taxa de câmbio” é um cavado engano. E sobre quem recai, e a que “preço”, o custo disso? Certamente que não será na minúscula classe possidente. E a grandeza intrínseca ou potencial da nossa economia aonde reside? No subsolo (submarino) da ZEE? Somos, acaso, a Grã-Bretanha? Se nos vemos em palpos de aranha para vingar enquanto parentes pobres do “grémio”, como ficaríamos fora dele?! Decerto não nos safaríamos com as vantagens (as tangíveis, leia-se, “com aquilo com que, até ver, se compram marmelos, papaias,…”) advenientes dessa "sublimação imperial" denominada CPLP.
No que se refere a estas reiteradas extrapolações (as virtudes de uma “taxa de câmbio” soberana) assemelham-se às que nos ensaios (simulações) são inscritas como factores incrementais – de amortecimento no caso dos «estabilizadores automáticos» [sem se questionarem de onde, como, quando e quem paga a factura] e de boost no caso dos «multiplicadores do crescimento» * como esta coisa fosse, e a respectiva comunidade se comportasse como se comportam os finlandeses na Finlândia ou os islandeses na Islândia.
A nossa máquina política e o “ambiente” em que a(s) máquinas operam produzem enormes perdas de energia, dissipam muita energia ou seja, a unidade de trabalho não é o resultado exacto do produto da força pelo deslocamento aliás, analogicamente aproxima-se mais da «lei da conservação da energia» (física).

* a seriedade do assunto deveria fazer do que sucedeu em 2012 as rectificações “os cortes orçamentais tiveram efeitos multiplicadores de curto prazo no produto maiores do que se esperava” de Christine Lagarde, Olivier Blanchard e Daniel Leigh v.g. FMI, um ensinamento imperecível. Não é o que sucede, e sempre por razões políticas e ideológicas.
Houve uma "subestimação" do efeito e o que há muito afirmo e reitero é que este efeito recessivo [por cada euro "poupado" com o ajustamento orçamental, o efeito recessivo no PIB varia entre 90 cêntimos a 1,7 euros e não de 50 cêntimos conforme fôra preconizado] é semelhante, na mesma medida, aos impactos dos multiplicadores de investimento [por cada euro investido na economia o efeito expansivo no PIB é, por ineficiências várias, inferior ao estimado] que são sobrestimados.
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a “confissão” ou o borrão na tela [surpreendido pela inexistência de um imposto sucessório]O quê, Portugal não tem um imposto sucessório?! Pensei que todos os países desenvolvidos tivessem

Eis o esplendor da ignorância de um técnico, douto!

E se houvesse?! Que expressão orçamental teria? Mas se por acaso tivesse uma expressiva receita a curto-prazo ficaria por saber se a médio prazo seria um bom negócio para o Estado.
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O que (est)as doutas personalidades desconhecem é a labirintica [em que cada “esquina” tem por função arrumar/encostar um “armário”] organização social portuguesa [é a isto que aludo quando atrás escrevi “dissipação de energia e ineficiência da máquina”]:

— não sabem nem sabemos nós os custos efectivos anuais na existência de 14 ou 15 sindicatos na PSP [15 sindicatos, 2740 dirigentes e delegados, 32 mil dias de dispensas gozadas num ano; um dos sindicatos tem 261 sócios, dos quais 249 são dirigentes e delegados];
— não sabem nem sabemos nós o preço que pago no Ministério da Educação por, ano após ano, décadas a fio, com milhares de professores com «horário-zero»;
— não sabem nem sabemos nós a real composição do tecido empresarial português. Exemplifico (garanto que o exemplo pode ser multiplicado por um factor de três dígitos e assim se ficará com uma percepção mais afinada do “universo”): 
1. 3 empreendedores detêm uma empresa comercial média (A)i) 3 sócios-trabalhadores, 2 colaboradores internos e 2 colaboradores externos (prestação de serviços de assessoria técnica); ii) facturação anual média de 600/700 mil euros; 
2. na empresa-mãe encavalitaram outras duas – i) a empresa (B), fictícia, cujo fim é a posse de parte do «imobilizado» e ii)  a empresa (C), fictícia, a quem a firma (A) paga pelos "serviços" prestados. 
Conclusão: na realidade 66% é virtual/pura ficção ou seja, são duas «empresas-parasita» cuja função (legal) é, por um lado, garantir a manutenção dos proveitos aos sócios e, por outro, justificar as escorrências/sorver os lucros por forma a que a empresa (A) veja reduzida à mínima expressão a tributação/fiscalidade.  
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O sotôr não conhece o doente!